Austrália x Brasil: dois gigantes sob o Cruzeiro do Sul

Artigo do prof. Dr. Marcelo Aves, coordenador do CEA, em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital, publicado em 10/06/2026.

O Cruzeiro do Sul brilha nas bandeiras dos dois países, uma coincidência astronômica que esconde uma simetria econômica curiosa. Brasil e Austrália vendem ao mundo quase as mesmas coisas, minério, comida e energia, e dependem do mesmo comprador, a China. São, em essência, duas economias de commodities voltadas para o Pacífico asiático. Ainda assim, o trabalhador de um produz várias vezes mais do que o do outro. Entender por quê é, no fundo, entender o que separa o Brasil dos países que enriqueceram.

O número, e a honestidade sobre ele

Começo desfazendo um mal-entendido que eu mesmo carregava. É tentador dizer que o australiano é “seis vezes mais produtivo” que o brasileiro, e existe um número que sustenta a frase: o PIB per capita nominal da Austrália gira em torno de US$ 66 mil, e o do Brasil fica perto de US$ 11 mil. A conta dá quase seis para um.

Só que esse é um número de renda, não de produtividade, e está inflado pela taxa de câmbio. Corrigindo pelo poder de compra, ou seja, pelo que cada dólar de fato compra em cada país, a distância encolhe: o per capita australiano em paridade fica em torno de US$ 73 mil, contra cerca de US$ 24 mil do Brasil. Algo como três para um.

A fotografia só fica nítida quando medimos o que de fato importa, o valor que um trabalhador gera por hora de trabalho. Pelos dados da Organização Internacional do Trabalho, a Austrália produz cerca de US$ 72 por hora trabalhada e o Brasil, cerca de US$ 21. A razão é de aproximadamente 3,4 para 1. Não são seis vezes, mas segue sendo uma diferença brutal: para gerar a mesma riqueza, o Brasil precisa de mais de três horas de gente trabalhando onde a Austrália gasta uma.

Faço questão da correção porque é nela que está o argumento. O abismo de renda é de seis vezes; o de produtividade, de três e meia. A diferença entre os dois números é justamente a parte que não se explica pelo esforço do trabalhador, e sim pelo país em que ele trabalha.

Tamanhos incomparáveis, vocações parecidas

Comparar os dois exige reconhecer o óbvio: não há simetria de escala populacional, ainda que ambos sejam continentais em área. O Brasil tem 213 milhões de habitantes e uma força de trabalho de cerca de 108 milhões de pessoas. A Austrália tem 27,5 milhões de habitantes e pouco mais de 14,5 milhões de trabalhadores. Em população, o Brasil é quase oito vezes maior.

As semelhanças aparecem quando se olha para a pauta de exportações. A Austrália exportou cerca de A$ 644 bilhões (aproximadamente US$ 425 bilhões) em 2024; o Brasil, US$ 349 bilhões em 2025. Os carros-chefe se sobrepõem em boa parte: minério de ferro, carne bovina e ouro. As diferenças aparecem na agricultura, em que a Austrália aposta em trigo e canola e o Brasil em soja, milho e açúcar, e na energia, com a Austrália forte em carvão mineral e gás natural e o Brasil em petróleo. A lógica, porém, é a mesma: escavar, plantar, criar e embarcar para a Ásia.

E embarcar, sobretudo, para um endereço só. A China comprou 28% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior em 2024, e mais de 70% da nossa soja e do nosso minério de ferro têm destino chinês. Na Austrália, a China responde por cerca de 30% das exportações. Os dois países terceirizaram à demanda chinesa boa parte do próprio ciclo econômico, uma dependência reconhecida tanto em Brasília quanto em Camberra. As duas capitais, aliás, guardam outra semelhança: ambas são cidades planejadas, erguidas longe dos maiores centros populacionais, ainda que em estilos arquitetônicos bem distintos. O debate sobre a exposição à China, porém, é mais intenso do lado australiano, onde o tema ganhou ainda mais urgência em 2020, quando a China impôs barreiras a vinho, cevada, carvão e lagosta australianos em meio a uma crise diplomática.

O que a Austrália vende e o Brasil não aprendeu a vender

Aqui está a primeira lição. A Austrália descobriu como exportar algo que não sai de um buraco no chão: serviços, e em especial educação. O ensino, em boa medida cursos universitários para estrangeiros, rendeu cerca de A$ 54 bilhões (aproximadamente US$ 36 bilhões) no último ano fiscal e já é o quarto maior item da pauta de exportações do país, atrás apenas de minério de ferro, carvão e gás. São mais de 800 mil estudantes estrangeiros, com chineses e indianos à frente.

É uma estratégia engenhosa, que aproveita as vantagens naturais do país. A Austrália pegou dois ativos, a língua inglesa e universidades respeitáveis, e os transformou em produto de exportação para os mesmos mercados populacionais gigantes que compram seu minério. Vende o ferro e, junto, oferece o diploma e uma formação de qualidade. O Brasil, que fala uma língua de alcance limitado e cujas universidades quase não disputam o estudante estrangeiro, não construiu essa segunda vertente. Exportamos a commodity; eles exportam a commodity e o conhecimento.

Por que o brasileiro produz menos?

A diferença de produtividade não é mistério, e raramente é culpa de quem trabalha. Ela vem em várias em camadas.

A mais visível é a logística, o velho “custo Brasil”. Tirar uma tonelada de soja ou minério do centro do país e levá-la até o porto custa caro, demora e com a carga fracionada em caminhões que circulam em estradas muitas vezes precárias. A incerteza jurídica é a segunda camada: contratos que podem ser rediscutidos, regras tributárias que mudam, processos que se arrastam por anos. Cada um desses pontos de interrogação vira um custo que o investidor embute no preço, e que sai da produtividade.

A camada menos visível, e talvez a mais decisiva no longo prazo, é a educação. No PISA de 2022, exame internacional que avalia jovens de 15 anos, o estudante australiano marcou 487 pontos em matemática contra 379 do brasileiro. Em leitura, foram 498 contra 410; em ciências, 507 contra 403. A Austrália está acima da média da OCDE nas três áreas e o Brasil, abaixo nas três. A distância de mais de cem pontos em matemática equivale a vários anos de escolaridade. Há um dado ainda mais duro: apenas metade dos jovens brasileiros alcançou o patamar mínimo de proficiência em leitura, contra três quartos na Austrália.

Cada jovem que sai da escola brasileira sem o básico de matemática e leitura já começa a vida adulta em desvantagem diante do colega do outro lado do globo. Daqui a dez anos, será o trabalhador cuja hora vale um terço da hora australiana, não por se esforçar menos, mas porque não possui as ferramentas para ser eficaz numa sociedade moderna. A produtividade de uma nação é, em boa medida, a soma do que ela ensinou às suas crianças vinte anos antes.

O espelho útil

A Austrália serve ao Brasil como espelho de um futuro possível, não como modelo a copiar: somos grandes e desiguais de um jeito que ela não é. Mas a lição é importante. Partindo de uma base de commodities muito parecida com a nossa, e tão atrelada ao mercado chinês quanto nós, a Austrália construiu instituições previsíveis, logística eficiente e um sistema educacional que virou ele próprio um produto de exportação. Nós ficamos com o minério.

O Brasil não precisa deixar de ser um gigante de commodities. Precisa parar de ser apenas isso. E o primeiro carregamento dessa nova pauta de exportação começa numa sala de aula.