Não são “acidentes”. São sinistros provocados por quem não deveria estar ao volante

Artigo do prof. Dr. Marcelo Aves, coordenador do CEA, em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital, publicado em 11/05/2026.

A frase “foi um acidente de trânsito” é muito comum e, na maioria das vezes, totalmente incorreta. Soa como se algo inevitável tivesse ocorrido, fruto do azar, da chuva ou do destino. Mas imprudência, imperícia e negligência não são fortuitas. Há sempre um grau de escolha. E no Brasil, elas matam com uma regularidade que envergonha qualquer país que se preze. Em 2024, foram 37.150 mortes no trânsito — o maior número em oito anos, segundo dados do Ministério da Saúde compilados pela Vital Strategies. Um aumento de 6,5% em relação a 2023. Nas rodovias federais, a PRF registrou 6.163 óbitos em 2024 e 6.044 em 2025 — ainda mais de 16 mortes por dia só nas BRs, mesmo com uma leve redução.

O termo “acidente” suaviza a realidade. A Lei 14.599/2023 alterou o Código de Trânsito Brasileiro para adotar “sinistro de trânsito”. Faz sentido. Sinistro carrega o peso da evitabilidade. A maioria esmagadora desses eventos tem causa humana clara: excesso de velocidade, ultrapassagens indevidas, direção sob efeito de álcool ou drogas, desatenção ao celular. Levantamentos do Ministério dos Transportes já apontavam que mais de 50% dos casos em rodovias federais decorrem de imprudência ou negligência — e não há evidências de que esse quadro tenha se revertido de forma estrutural.

Habilitação: o problema que persiste

A formação de condutores no Brasil continua problemática. O processo de habilitação, mesmo com as recentes tentativas de digitalização via app “CNH do Brasil”, revela falhas graves de qualidade. As taxas de reprovação na prova prática subiram — de menos de 2% em 2019 para cerca de 6,8% em carros e 5,6% em motos, para o ano de 2025. Em alguns estados, como o Rio de Janeiro, chegou perto de 47% na categoria B. Maior exigência é bem-vindo. Mas é preciso relativizar: com 93% dos candidatos ainda aprovados, o volume de gente ingressando no sistema com formação precária continua alto.

Muitos saem das autoescolas sem dominar noções básicas de física do veículo, de espaço, de risco. Dirigir não é só apertar acelerador e freio — é gerenciar uma máquina que circula a velocidades que multiplicam qualquer erro. E o pior: a atitude ao volante revela um desprezo pela responsabilidade coletiva. Beber e dirigir segue sendo normalizado em muitas rodas. “Só uma cerveja” vira tragédia estatística. O mesmo vale para o “só vou dar uma olhada no celular”.

Responsabilidade de verdade, não discurso vazio

Não vou repetir o chavão de que “precisamos de mais educação para os condutores”. Educação sozinha não basta quando o sistema não impõe consequências reais. É preciso fazer o condutor sentir o peso de estar no comando de algo que pode matar. Isso passa por três frentes:

Punição efetiva. Excesso de velocidade, alcoolemia, desrespeito à sinalização — essas infrações precisam custar caro, imediatamente. Não adianta multa que vira dívida prescrita ou processo que se arrasta por anos. Países que reduziram drasticamente suas mortes no trânsito — como Suécia e Noruega, que adotaram a chamada Visão Zero — combinaram fiscalização intensa com punições que o infrator efetivamente sente no bolso e na carteira de habilitação.

Restrições efetivas à habilitação. Quem acumula pontos ou comete infrações graves deve enfrentar barreiras reais para renovar ou reaver a CNH. O bom condutor pode ter facilidades; o mau condutor tem que ser barrado de forma cirúrgica.

Prioridade absoluta à vida. Infraestrutura ajuda, mas não resolve se o comportamento não mudar. Vias mais seguras, sinalização melhor, veículos mais seguros — tudo isso tem custo e demanda tempo. Enquanto isso, vidas se perdem por atitudes que um condutor minimamente responsável evitaria.

O Brasil trata o trânsito como se fosse uma loteria. Não é. Cada sinistro que resulta em morte ou lesão grave carrega responsabilidade individual e coletiva. Colocar a vida acima de tudo não é retórica. É exigir que quem conduz um veículo — seja carro, moto, caminhão — entenda que não está apenas se deslocando. Está exercendo uma atividade de alto risco que exige competência técnica e maturidade ética.

Enquanto seguirmos normalizando a imprudência, os números continuarão trágicos. Não são acidentes. São sinistros. E sinistros, por definição, podem — e devem — ser evitados. O custo de não fazer isso é medido em vidas que não voltam.