Artigo do prof. Dr. Marcelo Massarani, publicado em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital em 13/10/2026.

O hábito de compreender os problemas antes de procurar soluções é uma das contribuições mais valiosas da formação em engenharia.

Nos últimos anos, tenho recebido convites para falar sobre a maneira de pensar dos engenheiros a profissionais de diferentes áreas. Confesso que a receptividade me surpreendeu. Durante mais de 25 anos, lecionei Introdução à Engenharia para alunos ingressantes da Escola Politécnica da USP, abordando justamente a forma como a profissão enfrenta problemas. O interesse de pessoas sem formação técnica por esse assunto me fez perceber o quanto uma característica tão familiar aos engenheiros pode ser útil em outras atividades.

Acredito que o principal diferencial esteja no ponto de partida. Diante de um desafio, o engenheiro procura primeiro compreender o problema. Quer saber qual necessidade precisa ser atendida antes de se comprometer com uma solução. Parece uma precaução elementar, mas sua ausência ajuda a explicar muitas decisões equivocadas, especialmente no mundo dos negócios.

É comum encontrar empreendedores entusiasmados com uma ideia para um novo produto ou serviço. A proposta parece promissora e logo começam as discussões sobre desenvolvimento, investimentos e possibilidades de comercialização. Entretanto, quando se pergunta qual necessidade será atendida, nem sempre existe uma resposta convincente. O entusiasmo com a ideia acaba tomando o lugar da investigação sobre sua utilidade.

Em alguns casos, a situação chega a ser curiosa. O empreendedor concebe uma solução que considera extraordinária e passa a procurar problemas aos quais possa aplicá-la. Evidentemente, muitas inovações encontraram aplicações diferentes daquelas originalmente imaginadas. Isso faz parte da evolução tecnológica. Mas existe uma distância considerável entre desenvolver algo interessante e encontrar quem esteja disposto a pagar por isso.

Quem começa pela necessidade dispõe de maior liberdade para pensar. Pode considerar caminhos distintos, avaliar suas vantagens e reconhecer que uma alternativa aparentemente modesta atende melhor ao objetivo. A ideia inicial deixa de ser um compromisso e passa a ser uma possibilidade entre outras. Essa disposição também favorece a criatividade, pois permite explorar soluções que ficariam fora de consideração se a escolha já estivesse feita.

O apego às próprias ideias, por outro lado, costuma ser resistente aos fatos. Depois de dedicar tempo e recursos a uma proposta, seu autor tende a interpretá-los de maneira favorável à decisão tomada. Reconhecer que outra solução seria superior pode significar admitir que parte do trabalho foi desperdiçada. Nas organizações, a situação se torna ainda mais delicada quando a proposta tem o respaldo de alguém com autoridade. O projeto passa a ser defendido por razões que pouco têm a ver com sua conveniência.

Esse comportamento aparece também em empresas consolidadas. Decide-se implantar um novo sistema de gestão para melhorar a produtividade, mobilizam-se equipes e comprometem-se recursos consideráveis. Meses depois, a ferramenta está funcionando, mas os resultados continuam insatisfatórios. Uma análise mais cuidadosa talvez tivesse identificado dificuldades na organização do trabalho ou nos próprios procedimentos administrativos. O investimento pode ter sido executado com competência, embora sua necessidade nunca tenha sido demonstrada.

A formação em engenharia oferece instrumentos para enfrentar situações dessa natureza. Nas atividades de projeto, aprende-se que uma necessidade pode ser atendida de várias maneiras e que a escolha depende das circunstâncias. A solução tecnicamente mais sofisticada nem sempre é a mais conveniente. Custos, recursos disponíveis e condições de utilização precisam ser considerados. Essa experiência desenvolve o hábito de examinar alternativas sem perder de vista aquilo que se pretende alcançar.

Talvez esteja aí parte da explicação para a presença de tantos engenheiros em atividades distantes de sua especialidade original. Encontramos profissionais dessa formação na administração de empresas, no mercado financeiro, em posições executivas e na criação de negócios dos mais variados setores. A familiaridade com números certamente contribui, mas a capacidade de lidar com problemas pouco definidos também representa uma vantagem considerável.

Na administração, as dificuldades raramente chegam acompanhadas de um enunciado preciso. Aparecem misturadas a sintomas, interpretações e interesses conflitantes. Um diretor reclama da queda nas vendas, outro aponta a produtividade insuficiente e um terceiro sugere mudanças na estrutura da empresa. Antes de decidir, é necessário compreender o que está acontecendo. Uma solução apresentada com convicção pode conquistar apoio rapidamente, mesmo quando responde à pergunta errada.

Naturalmente, esse raciocínio não pertence exclusivamente à engenharia. Há excelentes profissionais de outras áreas que o empregam, assim como engenheiros que se precipitam diante da primeira resposta. A contribuição da formação está em cultivar esse hábito, particularmente nas disciplinas de projeto, em que os alunos precisam lidar com necessidades concretas e tomar decisões para as quais não existe uma única resposta correta.

O interesse que tenho encontrado nas apresentações para outros públicos reforça essa percepção. As pessoas reconhecem aplicações imediatas em suas atividades, independentemente da profissão. Compreender melhor uma dificuldade antes de agir pode parecer apenas uma questão de bom senso. Entretanto, o cotidiano das organizações oferece evidências abundantes de como esse cuidado é frequentemente negligenciado.

Há uma contribuição da engenharia que merece ser mais valorizada, inclusive fora dos ambientes técnicos. Seus conhecimentos especializados são essenciais para o desenvolvimento de produtos, processos e serviços, mas a maneira de raciocinar que acompanha essa formação tem utilidade muito mais abrangente. Saber encontrar boas soluções é importante. Saber identificar corretamente o problema permite, inclusive, reconhecer quando a solução imaginada não é tão boa assim.

No mundo dos negócios, ideias interessantes nunca foram propriamente escassas. O que parece faltar, em muitos casos, é disposição para investigar a necessidade que pretendem atender. Algumas são defendidas com tamanho entusiasmo que seus criadores acabam dedicando mais esforço a encontrar um problema que as justifique do que a descobrir se alguém realmente precisa delas.

Por Marcelo Massarani, Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, Conselheiro consultivo.