A Inteligência Artificial está tirando o protagonismo dos pilotos de Fórmula 1?
Debate ganhou força após o GP da Bélgica, quando problemas no gerenciamento das unidades de potência colocaram os algoritmos no centro das atenções
Portal TMC conversou com Prof.Dr. Marcelo Alves, coordenador do Centro de Engenharia Automotiva da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) sobre o tema.
Por Giovanna Oriani 23/07/26 às 06h55

(Foto: Jakub Porzycki/Reuters)
As reclamações de pilotos durante o Grande Prêmio da Bélgica colocaram um novo personagem no centro das discussões da Fórmula 1: a Inteligência Artificial. George Russell, Oscar Piastri e Lando Norris relataram problemas relacionados ao gerenciamento eletrônico das novas unidades de potência da temporada 2026, reacendendo o debate sobre até que ponto algoritmos podem influenciar o desempenho de um carro e, consequentemente, o resultado de uma corrida.
O assunto ganhou força depois que algumas equipes reconheceram dificuldades no gerenciamento da energia dos carros. Durante o fim de semana em Spa, alguns pilotos perceberam que estavam perdendo velocidade nas retas sem entender o motivo. Mais tarde, as equipes identificaram que o problema estava relacionado ao sistema que controla automaticamente a distribuição da energia entre os motores.
Para entender o que realmente está por trás dessa tecnologia, o portal TMC conversou com Marcelo Alves, coordenador do Centro de Engenharia Automotiva da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).
Segundo ele, embora o termo “Inteligência Artificial” seja amplamente utilizado, o que acontece na Fórmula 1 é um sistema de gerenciamento extremamente sofisticado, capaz de aprender padrões e otimizar o uso da energia disponível durante a corrida.
“Hoje, quando falamos da unidade de potência de um carro de Fórmula 1, não estamos falando apenas de um motor. O carro é um híbrido, composto por um motor a combustão e um motor elétrico alimentado por bateria. Como existe um limite para a quantidade de energia elétrica que pode ser utilizada em cada volta, a Inteligência Artificial entra justamente para decidir qual é a melhor forma de distribuir essa energia ao longo do circuito”, explica.
Marcelo Alves explica que esse tipo de tecnologia funciona de forma diferente dos programas tradicionais, que seguem apenas regras previamente definidas pelos engenheiros.
“Basicamente é um software que aprende padrões a partir dos dados. Em vez de depender exclusivamente de equações matemáticas, ele analisa milhares de informações coletadas ao longo das corridas e tenta identificar a melhor estratégia para determinada situação.”
Na prática, o sistema analisa uma série de informações durante a corrida, como a forma de pilotar de cada piloto, as condições da pista, o clima, o desgaste dos pneus e até situações inesperadas, como encontrar carros mais lentos pelo caminho.
“São tantas variáveis envolvidas que seria praticamente impossível construir um modelo matemático capaz de prever tudo. O aprendizado de máquina consegue analisar esse enorme volume de dados e buscar a melhor forma de utilizar a energia elétrica disponível.”
Quando a IA pode se tornar um problema
Segundo relatos das equipes, problemas no software podem ter feito com que alguns carros deixassem de entregar potência elétrica no momento ideal, comprometendo o desempenho em trechos importantes da pista.
Apesar das especulações, Marcelo Alves faz uma ressalva importante.
“Aparentemente, existe a chance de que o algoritmo tenha falhado e que a potência elétrica não tenha sido entregue no momento correto. Mas ainda não existe nenhuma confirmação oficial. Não sabemos se foi uma falha do algoritmo, do software, dos dados utilizados pelo sistema ou de outro fator. Ainda não há estudos conclusivos sobre o que aconteceu.”
O episódio no último Grande Prêmio mostrou o quanto esses sistemas passaram a influenciar o desempenho dos carros.
“Sem dúvida, hoje o desempenho deixou de depender apenas do piloto. Esse software de gerenciamento da energia pode deixar o piloto sem potência no momento errado e acaba determinando uma parte importante do desempenho do carro”, completou Marcelo.
Apesar das críticas levantadas por pilotos e parte dos torcedores, o especialista acredita que o uso da Inteligência Artificial dificilmente deixará de fazer parte da Fórmula 1. Segundo ele, o volume de informações processadas durante uma corrida é tão grande que seria praticamente impossível fazer esse gerenciamento apenas por meio de cálculos tradicionais.
“Esse balanço de energia é extremamente complexo para ser feito por um ser humano. De algum modo, a automação vai continuar existindo. Talvez ela seja regulamentada ou tenha limitações, mas dificilmente deixará de fazer parte da categoria.”
Ao mesmo tempo, acredita que a Fórmula 1 deverá buscar formas de preservar o protagonismo dos pilotos.
“A categoria certamente vai tentar criar regras para disciplinar o uso dessa tecnologia. Existe uma preocupação legítima em garantir que o piloto continue tendo o controle do carro e que a competição não seja decidida apenas por sistemas automáticos.”
Apesar do potencial, essa tecnologia ainda está amadurecendo dentro da Fórmula 1, o que ajuda a explicar por que algumas situações inesperadas ainda acontecem. Mesmo assim, Marcelo acredita que o aprendizado de máquina tende a ganhar ainda mais espaço nos próximos anos.
“O desafio será encontrar um equilíbrio entre inovação tecnológica e competição esportiva. A Inteligência Artificial veio para ficar. O grande debate será definir até onde ela pode ajudar sem tirar do piloto o protagonismo que sempre foi a essência da Fórmula 1.”
Se antes o diferencial estava apenas no talento do piloto e no trabalho dos engenheiros, a temporada de 2026 mostra que os algoritmos também passaram a disputar décimos de segundo. O desafio agora é fazer com que essa evolução tecnológica caminhe lado a lado com a essência do esporte.
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