- Artigo do prof. Dr. Marcelo Massarani, publicado em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital em 10/03/2026.
A disseminação de conteúdo gerado por inteligência artificial pode transformar a autoria humana em um ativo escasso
Em 2 de março de 2026, a Authors Guild, a maior organização profissional de escritores dos Estados Unidos, anunciou a abertura pública de um selo chamado Human Authored. A certificação identifica livros cujo texto foi escrito integralmente por seres humanos, sem geração por inteligência artificial. Autores e editoras podem utilizar o selo para indicar que a obra foi efetivamente escrita por uma pessoa.
A iniciativa chama atenção por um motivo simples. Durante séculos nunca foi necessário informar que um livro havia sido escrito por um ser humano. Esse sempre foi o pressuposto básico da produção intelectual.
A disponibilização pública desse selo indica que algo mudou. A produção de textos por inteligência artificial já se tornou comum o suficiente para que a autoria humana comece a ser tratada como um atributo que precisa ser declarado.
Esse pequeno movimento institucional revela uma transformação mais ampla. A produção intelectual entra em uma fase em que o conteúdo sintético cresce em ritmo muito mais rápido do que o produzido diretamente por pessoas. A inteligência artificial permite gerar textos, imagens e relatórios em poucos segundos. O resultado é um aumento abrupto da oferta.
Quando a oferta cresce dessa forma, o valor unitário tende a se deslocar. Isso abre espaço para uma hipótese que começa a aparecer em diferentes discussões sobre tecnologia e cultura. Em um ambiente saturado por produção sintética, a criação genuinamente humana pode passar a ganhar valor justamente por sua escassez.
Uma das autoras que examina esse fenômeno é Naomi S. Baron no livro Who Wrote This? How AI and the Lure of Efficiency Threaten Human Writing (Stanford University Press, 2023). Baron observa que a grande promessa das ferramentas de inteligência artificial é a eficiência. Elas escrevem rápido, produzem muito e reduzem o esforço necessário para gerar texto.
Mas há um efeito colateral relevante. Escrever não é apenas registrar ideias prontas. Escrever faz parte do próprio processo de pensar. Ao organizar frases, revisar argumentos e escolher palavras, o autor estrutura seu raciocínio. Quando a produção textual passa a ser delegada a sistemas automáticos, parte desse trabalho intelectual também desaparece.
O resultado é um ambiente em que textos circulam em grande volume, mas a relação entre texto e autoria se torna mais difusa. A pergunta que dá título ao livro de Baron começa a surgir com frequência crescente. Quem escreveu isso?
Outra contribuição importante para essa discussão aparece no trabalho da filósofa Shannon Vallor, autora de The AI Mirror. How to Reclaim Our Humanity in an Age of Machine Thinking (Oxford University Press, 2024). Vallor observa que sistemas de inteligência artificial funcionam essencialmente como máquinas de reconhecimento e recombinação de padrões.
Esses sistemas são treinados com enormes conjuntos de dados e aprendem a produzir novas combinações do material existente. O resultado pode ser tecnicamente impressionante. Textos coerentes, imagens elaboradas e respostas articuladas surgem a partir de comandos simples.
Mas existe um limite estrutural nesse processo. Sistemas de inteligência artificial não possuem experiência vivida. Não têm memória biográfica, responsabilidade moral ou inserção concreta na realidade social. O que produzem é uma reorganização estatística de conteúdos já existentes.
A criação humana possui outra origem. Ideias surgem da experiência direta do mundo, do confronto com problemas reais e da responsabilidade do autor pelas próprias afirmações. Mesmo quando dois autores tratam do mesmo tema, o percurso intelectual que leva a cada texto tende a ser distinto.
Essa distinção ganha relevância quando o volume de conteúdo sintético aumenta. Se grande parte do material disponível resulta de recombinações estatísticas, aquilo que nasce de uma experiência humana concreta tende a se destacar de forma mais clara.
Esse tipo de movimento já ocorreu em outras transições tecnológicas. Um exemplo interessante foi analisado por David Sax no livro The Revenge of Analog. Real Things and Why They Matter (PublicAffairs, 2016). Sax investigou o comportamento de diversos mercados durante a expansão da digitalização nas últimas décadas.
A expectativa inicial era que produtos analógicos desaparecessem à medida que soluções digitais se tornassem dominantes. Em vários setores ocorreu o oposto. A procura por discos de vinil voltou a crescer, câmeras analógicas ganharam novo interesse e livros impressos mantiveram forte presença.
Sax mostra que quando uma tecnologia digital se torna dominante em escala, aquilo que preserva características humanas ou materiais pode adquirir novo valor. Tangibilidade, imperfeições e processos de produção visíveis passam a ser vistos como qualidades.
Algo semelhante pode ocorrer com a produção intelectual. A inteligência artificial permite gerar textos em escala industrial. Isso reduz o custo de produzir conteúdo, mas também cria um ambiente saturado de material gerado por sistemas estatísticos.
Nesse cenário, a autoria humana passa a carregar atributos que o conteúdo sintético não possui. Entre eles estão responsabilidade intelectual, experiência pessoal e a capacidade de formular ideias que não são apenas combinações probabilísticas de dados existentes.
O selo Human Authored pode ser interpretado como um dos primeiros sinais dessa mudança. Ele não surgiu por nostalgia literária nem por resistência tecnológica. Surgiu porque a distinção entre texto humano e texto sintético começou a ter relevância prática.
Durante grande parte da história, a criação intelectual humana foi simplesmente o padrão. A inteligência artificial alterou essa condição. Quando máquinas passam a produzir textos, imagens e ideias em escala, a autoria humana deixa de ser invisível. Ela passa a ser uma característica identificável.
Talvez estejamos entrando em uma nova etapa da economia da cultura e do conhecimento. Não porque a inteligência artificial substituirá os autores humanos, mas porque ela mudará o contexto em que a autoria é percebida.
Quando quase tudo pode ser gerado automaticamente, aquilo que foi pensado, escrito e assumido por um autor humano adquire outro tipo de valor.
A inteligência artificial está transformando texto em abundância. E, por consequência, pode estar transformando a autoria humana em escassez.Se essa tendência se confirmar, o selo Human Authored poderá ser lembrado no futuro como um dos primeiros sinais de uma mudança mais profunda. Em um ambiente dominado pela produção sintética, a autoria humana pode passar a representar algo diferente. Um sinal de origem, um indicador de responsabilidade intelectual e, sobretudo, um atributo de escassez. E, como ensina a economia mais elementar, aquilo que se torna escasso tende a ganhar valor.
Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo

