Inovação ou Novidade

Ronaldo de Breyne Salvagni*

Inovação nem sempre é bom. Há inovações ruins, como a recente “tomada elétrica brasileira” de três pinos, uma “jabuticaba” que só existe no Brasil, é muito mais cara que as outras, não é compatível com nada, não tem vantagem técnica nenhuma e foi boa apenas para o lobby dos fabricantes locais de tomadas (e adaptadores!).

Em termos de setores industriais, podemos identificar quatro cenários possíveis num país:

Cenário 1: o produto é simplesmente importado e vendido no mercado local;

Cenário 2: o produto é fabricado e vendido no país, com projeto e tecnologia vindos de fora, eventualmente com pequenas adaptações às condições locais. Ocorre a geração de empregos, porém de baixa qualificação e baixa remuneração. Neste cenário não ocorre desenvolvimento tecnológico nem inovação – podem vir “novidades” de fora, mas isso não é inovação. Esse é o cenário industrial típico no Brasil;

Cenário 3: a concepção e o projeto do produto são desenvolvidos no país, com tecnologias vindas de fora. Exige pessoal mais qualificado e tem melhor remuneração. A rigor, também ainda não ocorre inovação, pois são realizados projetos de engenharia normais de produtos, empregando tecnologias comuns já existentes;

Cenário 4: há pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, que serão utilizadas nos futuros projetos de produtos. Aqui, sim, ocorre a inovação, criando tecnologias e produtos que não existiam antes. Há criação de empregos de alta qualificação e remuneração, nos níveis de mestrado e doutorado.

Há alguns poucos exemplos no Brasil de empresas que atuam no cenário 4. É o caso da Embraer, da Petrobrás, da Embrapa e, mais recentemente,da Vale do Rio Doce. Elas se destacam pela inovação e são fortes competidoras mundiais em suas respectivas áreas de atuação. Desenvolvem pesquisa científica e tecnológica aqui, interagindo fortemente com universidades e centros de pesquisa brasileiros, por meio de convênios e contratos de dezenas e até centenas de milhões de dólares. Note-se que todas elas são empresas brasileiras.

Um exemplo diferente é dado pelo setor automotivo no Brasil, que está claramente no cenário 2. É um dos mais importantes setores industriais brasileiros, com 26 montadoras e cerca de 500 fornecedores de autopeças.

Contribui com 22,5% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial e 5,2% do PIB total do País. E emprega 1,5 milhão de pessoas.
Apesar disso tudo, com raras exceções, os projetos dos carros vêm de fora e são apenas adaptados e fabricados aqui. Praticamente não há atividade de pesquisa e desenvolvimento locais, muito menos inovação.

Cabe observar que, entre os dez países maiores produtores de veículos no mundo, o Brasil ocupa o 6.º lugar e é o único que não tem uma montadora nacional própria.

Entre os fornecedores de autopeças, todos os maiores também são empresas estrangeiras.

O setor automotivo não é exceção. O Brasil, com a “política de substituição de importações” adotada por sucessivos governos desde a década de 1950, está parado no cenário 2 na grande maioria dos seus setores produtivos.

Fechar o mercado e taxar importações como pretexto de” proteger a indústria brasileira” (curiosamente incluindo nisso as multinacionais instaladas aqui) só leva à estagnação do desenvolvimento local. Não há ambiente nem razão para fazer inovação aqui – as multinacionais o fazem no seu país de origem, e as empresas nacionais locais apenas trazem as “novidades” de fora.

Já países como o Japão, a Coreia e, agora, a China (ver The New York Times em http://nyti.ms/dL2zp3), em vez de meramente substituir importações, adotaram uma política de produção industrial voltada para a exportação, o que expôs suas indústrias à competição internacional e forçou seu desenvolvimento de forma fantástica.

Alguns fatos que devem ser considerados:

  • inovar é caro e arriscado, e a empresa somente vai investir em inovação se precisar disso para sobreviver;
  • a inovação só ocorre num ambiente de livre competição global.
    Na antiga União Soviética, por exemplo, os mesmos modelos de automóveis foram produzidos por mais de 30 anos sem inovação alguma;
  • apesar de cara e arriscada, a inovação é estratégica para a empresa, e normalmente esta vai fazer isso no seu país de origem;
  • a necessidade de inovação é que gera a demanda por mestres e doutores. Não adianta inverter isso e investir na formação de mestres e doutores – se a demanda não existir previamente, vai haver apenas formação de desempregados;
  • e o cenário 4 corresponde a uma situação de autossuficiência tecnológica, independência e liderança no respectivo setor produtivo global. É nesse cenário que ocorre a inovação.

Assim, se desejarmos chegar ao cenário 4 e desfrutar da respectiva “inovação”, não há outro jeito, precisamos ter empresas nacionais (privadas), apoiadas e incentivadas, suficientemente preparadas para competir com (e ganhar das) empresas estrangeiras na arena global. Ou pelo menos termos multinacionais que instalem aqui centros de pesquisa e tecnologia e façam parcerias de valores substanciais com universidades e centros de pesquisa locais.

Se não for assim, melhor deixar a inovação para lá e nos contentarmos com as “novidades”.

* ENGENHEIRO NAVAL, DOUTOR EM ENGENHARIA, É PROFESSOR TITULAR DA ESCOLA POLITÉCNICA DA USP

(Artigo publicado originalmente em O Estado de S. Paulo – 28/11/2011)