Bitcoin: de dinheiro digital a reserva de valor

Em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital (20/01/2026) o prof. Dr. Marcelo Massarani traz “Como uma tecnologia criada para pagamentos acabou redefinindo o conceito de proteção patrimonial.”

Em uma conversa recente com amigos, durante um café tranquilo na praça de uma cidade do interior paulista, o assunto começou de forma quase banal. Falávamos sem pressa, como costuma acontecer nesses encontros. Comentávamos sobre o custo de vida, sobre como o dinheiro parece perder valor mais rápido do que antes, sobre viagens adiadas e planos revistos. Em algum momento, alguém mencionou ouro como proteção, outro lembrou dos imóveis, e foi nesse fluxo natural que o Bitcoin surgiu na conversa. O que me chamou a atenção não foi resistência ou crítica, mas o grau de desconhecimento que ainda cerca o tema. Apesar de existir há mais de uma década, de já integrar o debate institucional global e de estar presente nas estratégias de grandes investidores, o Bitcoin segue sendo pouco compreendido, inclusive por investidores experientes e pessoas com patrimônio respeitável.

Essa constatação serve como ponto de partida para uma reflexão mais ampla. Ao longo da história econômica, as reservas de valor nunca foram concebidas de forma deliberada. Ouro, prata, terras e, mais recentemente, imóveis e participações empresariais tornaram-se instrumentos de preservação de riqueza por um processo cumulativo. Aceitação social, escassez percebida, utilidade prática e confiança construída ao longo de décadas ou séculos. Nenhum desses ativos nasceu com a intenção explícita de ser uma reserva de valor. Eles passaram a ocupar esse papel porque o mundo, gradualmente, decidiu tratá-los assim.

Nas últimas décadas, contudo, surge um fenômeno sem precedentes históricos. Um ativo inteiramente digital, criado por uma pessoa ou grupo ainda desconhecido, começa a ser tratado por indivíduos, empresas, instituições financeiras e até governos como um meio legítimo de preservação de riqueza. Este artigo não constitui recomendação de investimento. Seu objetivo é analisar um caso singular em que a tecnologia, e não um recurso natural ou uma autoridade política, deu origem a uma nova forma de reserva de valor.

O contexto atual ajuda a explicar por que esse debate ganhou força. O mundo vive uma retomada explícita da busca por ativos de proteção. O ouro voltou a ocupar papel central nas carteiras de grandes investidores e bancos centrais, impulsionado por inflação persistente, endividamento público elevado e incertezas geopolíticas. A prata acompanha esse movimento, mas com uma característica adicional relevante. Sua demanda industrial cresce de forma estrutural, associada à eletrificação, à transição energética e a aplicações tecnológicas avançadas. Nesse caso, a valorização decorre não apenas de uma função defensiva, mas também de uma utilidade concreta e crescente.

Esse ponto é fundamental. Reservas de valor duradouras emergem quando escassez encontra função real. O Bitcoin nasce exatamente nesse cruzamento, ainda que por um caminho completamente distinto dos metais preciosos.

Em 31 de outubro de 2008, em meio à crise financeira global, foi publicado por Satoshi Nakamoto o white paper intitulado Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System (Bitcoin: um sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto). O próprio título já indica sua ambição original. O Bitcoin foi concebido para ser uma forma de dinheiro digital, utilizável diretamente entre pessoas, sem intermediários.

O documento buscava resolver um problema estrutural: permitir transferências de valor digitais entre partes sem depender de bancos, governos ou instituições financeiras. A motivação era clara. Sistemas financeiros tradicionais exigem confiança institucional, e a crise de 2008 mostrou que essa confiança pode falhar de forma sistêmica. O Bitcoin foi concebido como um sistema em que a confiança é substituída por verificação matemática, criptografia e consenso distribuído.

O que viabiliza esse sistema é uma implementação da tecnologia de livro-razão distribuído, cujo formato mais conhecido é a blockchain. Trata-se de um livro-razão público, distribuído e imutável, mantido por uma rede global de participantes independentes. Esse arranjo permite que o Bitcoin funcione sem uma autoridade central, sem um controlador único e sem a necessidade de intermediários confiáveis.

A blockchain cumpre o papel de infraestrutura do sistema. A reserva de valor, propriamente dita, é o Bitcoin enquanto ativo econômico. O valor não emerge da tecnologia em abstrato, mas de um conjunto muito específico de decisões de engenharia, econômicas e criptográficas incorporadas ao protocolo que opera sobre essa blockchain.

O Bitcoin se distingue de qualquer outro ativo conhecido ao estabelecer uma escassez digital absoluta. Sua oferta máxima é fixa, conhecida e imutável, limitada a 21 milhões de unidades. Trata-se de uma regra matemática inscrita no código, sustentada pela própria arquitetura da rede e por seu mecanismo de consenso. Não é uma política monetária sujeita a revisões discricionárias. Essa escassez está definida desde a origem e pode ser verificada por qualquer participante.

Essa mesma arquitetura, contudo, impõe um limite claro ao uso do Bitcoin como dinheiro no sentido estrito. O intervalo necessário para a confirmação segura de uma transação em sua blockchain torna-o pouco adequado para pagamentos cotidianos imediatos. Novos blocos são incorporados à rede, em média, a cada 10 minutos. Isso faz com que a primeira confirmação de uma transação demande, tipicamente, esse período. Essa característica operacional não enfraqueceu o Bitcoin. Ao longo do tempo, ela ajudou a deslocar sua percepção de meio de troca para instrumento de preservação patrimonial, frequentemente comparado ao ouro em sua versão digital.

A consolidação desse papel foi consequência direta do uso contínuo do sistema ao longo do tempo, e não de uma decisão prévia ou de uma mudança deliberada de narrativa. À medida que o Bitcoin demonstrou robustez, previsibilidade e resistência a interferências externas, o mercado passou a valorizar mais suas propriedades de escassez, durabilidade e verificabilidade do que sua capacidade de operar como instrumento de pagamento rápido. Assim, aquilo que foi concebido como dinheiro eletrônico ponto a ponto acabou se firmando, de forma orgânica, como uma nova categoria de reserva de valor, moldada pela tecnologia.

Quando comparado às alternativas tradicionais de reserva de valor, o contraste se torna evidente. Moedas fiduciárias dependem da disciplina monetária dos emissores. Imóveis preservam valor, mas são ativos de baixa liquidez e fortemente dependentes de contexto local. Ações oferecem crescimento, mas carregam riscos empresariais e de mercado. Ouro e prata possuem longa legitimidade histórica, mas exigem custódia física e logística. O Bitcoin não substitui esses ativos. Ele introduz uma alternativa conceitualmente distinta. Uma reserva de valor nativa do ambiente digital, com regras transparentes, universais e previsíveis.

Essa visão deixou de ser restrita a entusiastas. Nos últimos anos, o Bitcoin passou a ser reconhecido como reserva de valor por instituições financeiras tradicionais, fundos de investimento, empresas listadas em bolsa e até governos. Bancos que antes o classificavam como irrelevante passaram a oferecer custódia e produtos regulados. Gestores institucionais passaram a incluí-lo como instrumento de diversificação de longo prazo. Países que inicialmente o trataram com desconfiança passaram a reconhecê-lo como ativo estratégico. Trata-se de uma mudança estrutural de percepção, ainda que longe da unanimidade.

A transparência do sistema reforça essa posição. Todas as transações são registradas em um livro-razão público e imutável na blockchain. A possibilidade de autocustódia permite que indivíduos sejam os próprios guardiões de seu patrimônio, sem intermediários. Isso exige responsabilidade, estudo e maturidade. Cada pessoa deve realizar sua própria pesquisa antes de adotar esse modelo.

Talvez a surpresa que observei naquele café na praça venha exatamente daí. O Bitcoin não se encaixa confortavelmente nos modelos mentais tradicionais. Ele nasceu como dinheiro, tornou-se reserva de valor e inaugurou uma nova categoria de ativo. Um experimento bem-sucedido de engenharia econômica e tecnológica que mostrou ser possível criar escassez, confiança e valor durável a partir de código e consenso distribuído.

O Bitcoin é, portanto, um marco histórico ao demonstrar que a tecnologia é capaz de criar algo que, até pouco tempo, parecia reservado à natureza ou ao Estado. Ele não é perfeito, nem universal, mas é único.

E o mais provocativo é que essa história não parou no Bitcoin. Já existe uma outra criptomoeda, construída com tecnologia mais recente, que preserva o essencial que fez do Bitcoin um marco, como escassez, descentralização e segurança, e enfrenta de forma direta o seu principal gargalo operacional. Se a tese do ouro digital se sustenta, a pergunta inevitável é outra: e se o próximo passo não for apenas guardar valor, mas fazê-lo circular com a mesma solidez? É exatamente essa possibilidade que conduz ao próximo artigo.

Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo