Quando decidir rápido vira desculpa para decidir mal

Artigo do prof. Dr. Marcelo Massarani, publicado no newsletter MSSRNI – Linkedin – em 23/01/2026

Decidir rápido passou a ser confundido com eficiência. Em muitos ambientes, velocidade virou quase uma medalha gerencial e qualquer pausa para pensar é tratada como entrave. O detalhe inconveniente é que rapidez não assegura qualidade. Em decisões relevantes, ela costuma apenas antecipar problemas que aparecerão depois, com custo adicional.

Decisões importantes seguem um roteiro básico. Compreender o problema. Examinar alternativas reais. Escolher assumindo consequências. Quando esse roteiro é atropelado, a decisão até sai no prazo e rende aplausos momentâneos. O custo aparece mais tarde, quando já não há muito o que comemorar.

O erro mais frequente aparece logo no início. Decide-se antes de entender direito o que está sendo decidido. Problemas mal definidos produzem soluções decorativas. E quanto mais frágil o diagnóstico, maior tende a ser a convicção exibida. Confiança excessiva, nesse contexto, costuma funcionar como substituto elegante para método.

O questionamento isento cumpre um papel central. Testa premissas, expõe vieses e amplia o campo de visão. Perguntas bem colocadas ajudam a distinguir fato de interpretação, urgência real de ansiedade organizacional, risco pensado de aposta impulsiva. Sem esse filtro, a decisão passa a refletir mais o clima interno do que a realidade externa.

Não surpreende que muitas organizações dificultem esse tipo de questionamento. A hierarquia desencoraja discordâncias. O consenso apressado elimina nuances. A obsessão por resultados imediatos reduz o espaço para reflexão. A decisão avança pouco testada. Quando os efeitos indesejados surgem, o discurso muda. O método, curiosamente, segue intacto.

Decidir bem exige lidar com a dúvida de forma estruturada. Pressupõe aceitar leituras diferentes antes da escolha final. Em muitos casos, a decisão melhora porque o entendimento do problema muda. Um enquadramento distinto revela caminhos que simplesmente não apareciam antes. Simples assim. E nem sempre confortável.

Por isso, organizações mais maduras preservam espaços de reflexão menos capturados pela urgência do dia a dia. Esses espaços qualificam decisões e colocam a liderança à prova. Às vezes, tudo o que separa uma boa decisão de uma decisão cara é alguém disposto a sustentar a pergunta certa quando todos já estão prontos para ir embora.

Essa dinâmica é retratada de forma magistral no filme 12 Angry Men, conhecido no Brasil como Doze Homens e uma Sentença, dirigido por Sidney Lumet e lançado em 1957. É um daqueles filmes que envelhecem melhor do que muitas teorias de gestão. Um clássico absoluto, tenso, inteligente e atual. A recomendação para o final de semana é enfática. Mesmo para quem já assistiu, rever costuma ser uma ótima forma de lembrar que uma boa pergunta pode mudar tudo.