IA não substitui competência. Ela a expõe.

Artigo do newsletter MSSRNI, via LinkedIn, do prof. Dr. Marcelo Massarani, em 06/02/2026.

A Inteligência Artificial (IA) passou a ocupar espaço central no discurso corporativo. Fala-se em ganhos de produtividade, automação de tarefas complexas e aceleração de decisões. Tudo isso é real. O ponto que costuma ficar de fora é simples. IA é ferramenta. E toda ferramenta pressupõe alguém que saiba usá-la.

Em essência, a IA automatiza. Executa, combina, resume, sugere e acelera processos. O que ela não faz é criar competência onde ela não existe. Automatizar algo sem compreender o que está sendo automatizado transforma ganho potencial em risco operacional.

Exemplos simples ajudam a esclarecer. Uma calculadora resolve uma raiz quadrada em uma fração de segundo. Ainda assim, quem a utiliza precisa ter uma ordem de grandeza do resultado esperado. Sem essa referência, não há como perceber erros de entrada ou resultados claramente equivocados. A calculadora não ensina matemática. Ela apenas executa um cálculo para quem já entende o problema.

O mesmo raciocínio vale para ferramentas avançadas de engenharia, como softwares de CAE, sigla para Computer-Aided Engineering. Engenheiros experientes nunca confiam em uma simulação sem antes ter uma estimativa plausível do comportamento do sistema. Sem essa capacidade de avaliação, o software vira apenas um gerador de gráficos sofisticados, sem significado técnico.

A IA segue exatamente essa lógica. Ela amplia a capacidade de quem já tem repertório e acelera decisões de quem domina o processo. Ao mesmo tempo, expõe fragilidades quando o conhecimento de base é insuficiente. Respostas rápidas, bem estruturadas e convincentes não substituem entendimento.

É aí que surgem os riscos mais relevantes do uso corporativo de IA. Esperar que a ferramenta entregue conhecimento pronto ou resolva problemas mal definidos leva à terceirização do julgamento. Quando a empresa deixa de avaliar criticamente os resultados, transfere para a tecnologia uma responsabilidade que continua sendo humana.

Outro risco recorrente é a falsa sensação de maturidade digital. A adoção de IA acontece sem revisão de processos, sem qualificação adequada e sem critérios claros de decisão. Automatiza-se o que já era confuso e espera-se que a tecnologia resolva o que nunca foi bem compreendido.

Usar IA de forma consistente exige capacidade de formular boas perguntas, interpretar respostas e rejeitar resultados que não fazem sentido. Isso não está embutido na ferramenta. Está nas pessoas, nos métodos e na cultura decisória da organização.

A discussão relevante já não é se a empresa deve usar IA. Essa etapa foi superada. A questão central é outra. A empresa entende suficientemente bem seus processos, seus dados e suas decisões para automatizá-los com responsabilidade?

Antes de implementar IA, algumas perguntas merecem ser feitas:

• O processo que se pretende automatizar é bem compreendido?

• Existe capacidade interna para avaliar a qualidade dos resultados gerados?

• Há critérios claros para aceitar, revisar ou rejeitar as respostas da IA?

• O uso da ferramenta reduz risco ou apenas acelera decisões frágeis?

• Quem assume a responsabilidade final quando a decisão automatizada falha?

IA bem utilizada amplia capacidade e consistência.

IA mal utilizada amplia erros com mais velocidade.

Como em tantas outras situações, o fator decisivo não está na tecnologia, mas no nível de entendimento de quem a coloca em operação.

Indicação para o fim de semana

Uma boa sugestão para o fim de semana é 2001: A Space Odyssey, lançado em 1968 e dirigido por Stanley Kubrick. Além de ser um clássico do cinema, o filme conversa de forma interessante com o tema do artigo ao mostrar como sistemas altamente automatizados podem assumir um papel central nas decisões quando o entendimento humano fica em segundo plano. HAL 9000 funciona de maneira impecável do ponto de vista técnico, mas a falta de supervisão e de clareza sobre seus objetivos acaba conduzindo a situações inesperadas. É um convite tranquilo à reflexão sobre tecnologia, responsabilidade e julgamento humano, e uma ótima escolha mesmo para quem já conhece o filme.