Em artigo publicado em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital (16/02/2016), o prof. Dr. Marcelo Massarani traz Entre a Lua cheia e o equinócio, um cálculo secular organiza o calendário da folia.

Todos os anos a mesma pergunta reaparece: Por que o Carnaval muda de data? Às vezes ocorre no início de fevereiro. Em outros anos, avança até março. Para quem já está com a fantasia pronta, a variação pouco altera o entusiasmo. Mas a explicação revela algo instigante. A folia depende diretamente dos movimentos da Terra, da Lua e do Sol.

Tudo começa com a Páscoa. O Carnaval ocorre 47 dias antes dela. Para determinar a terça-feira de Carnaval, é necessário primeiro estabelecer a data da Páscoa. E é nesse momento que a astronomia entra discretamente na organização da festa.

A regra foi definida nos primeiros séculos do cristianismo. A Páscoa deve ser celebrada no primeiro domingo após a primeira Lua cheia que ocorre depois do equinócio de primavera do hemisfério norte, convencionado em 21 de março. O equinócio é o momento do ano em que o dia e a noite têm aproximadamente a mesma duração, resultado do posicionamento da Terra em relação ao Sol. A partir desse marco, considera-se a primeira Lua cheia seguinte e fixa-se o domingo posterior como data pascal.

O exemplo de 2026 torna o mecanismo bastante claro. Neste ano, a primeira Lua cheia após 21 de março ocorre em 1º de abril. O domingo seguinte é 5 de abril, data da Páscoa. Retrocedendo 47 dias no calendário chega-se a 17 de fevereiro, terça-feira de Carnaval. A Quarta-feira de Cinzas ocorre em 18 de fevereiro. Nada é casual. Há um cálculo preciso por trás da festa.

Essa variação anual decorre do ciclo lunar, que dura cerca de 29 dias e meio. Como o ano solar não é múltiplo exato desse período, as fases da Lua se deslocam gradualmente ao longo do calendário. Esse pequeno desencontro entre dois ciclos naturais é suficiente para mover datas inteiras de um ano para o outro. Por isso, o Carnaval pode ocorrer entre o início de fevereiro e o começo de março, sempre obedecendo à mesma engrenagem celeste.

Quanto à origem histórica da celebração, ela também resulta de um processo gradual. No calendário cristão medieval, o período anterior à Quaresma era marcado por celebrações mais intensas, em contraste com o tempo de recolhimento que viria a seguir. A expressão latina carnis vale costuma ser associada à ideia de despedida da carne. Ao longo dos séculos, diferentes culturas europeias incorporaram música, sátira e inversão social a essas festividades. No Brasil, essa herança ganhou ritmo e identidade próprios, mas a estrutura do calendário permaneceu vinculada à antiga regra astronômica.

Há uma ironia elegante nesse arranjo. O Carnaval simboliza espontaneidade e criatividade. No entanto, sua data depende de um alinhamento rigoroso entre astros que seguem trajetórias previsíveis. Enquanto blocos se organizam na última hora e fantasias nascem de ideias repentinas, a chegada da festa já estava determinada quando a Lua completou sua fase cheia no momento exato previsto.

Entre um samba e outro, celebramos algo cuja data foi definida a partir da observação do céu. A música se encerra. A quarta-feira chega pontualmente. A Terra continua girando. A Lua segue seu percurso. E o próximo Carnaval já começa a tomar forma, silenciosamente.

No meio da aparente desordem da festa, há método. No centro da folia, há cálculo. E, se alguém duvidar, basta lembrar que até o ritmo vibrante de uma escola de samba depende da precisão do seu mestre de bateria. A mecânica celeste, ao que tudo indica, também não perde o compasso.

Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo