A formação de pessoas como chave para o futuro econômico do Brasil
Artigo do prof. Dr. Marcelo Alves, coordenador do CEA, em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital. 13/02/2026
Em um mundo cada vez mais integrado e competitivo, a qualidade da educação básica não é apenas uma questão social, mas um fator decisivo para o crescimento econômico sustentável. No Brasil, os indicadores recentes de desempenho educacional revelam um quadro que merece atenção urgente dos líderes empresariais, governantes e sociedade em geral.
Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2022, divulgados pela OCDE, apresentam um cenário desafiador: os estudantes brasileiros de 15 anos obtiveram uma pontuação média de 379 em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências. Para contextualizar, esses números ficam bem abaixo da média da OCDE, que foi de cerca de 472 em matemática, 476 em leitura e 485 em ciências.
Comparando com outros países, a Alemanha registrou 475 em matemática, 480 em leitura e 492 em ciências; o México, 395, 415 e 410, respectivamente; e a Argentina, 378, 401 e 406. Historicamente, o desempenho do Brasil no PISA tem se mantido consistentemente baixo desde a primeira participação do país, com pontuações que variam, mas que o posicionam sistematicamente entre os piores colocados entre as economias participantes – geralmente no quartil inferior.
Por exemplo, em matemática, a nota evoluiu de 334 em 2000 para 379 em 2022, um avanço, mas insuficiente para aproximar o país dos líderes como Singapura (575) ou mesmo da média da OCDE, reforçando que a posição recente não nos insere entre as nações com melhor formação educacional para os jovens. Esses dados não são meras estatísticas – eles sinalizam barreiras estruturais que podem limitar o potencial produtivo do país em setores chave como serviços, indústria e agronegócio.
Uma economia moderna, ancorada em informação, inovação e eficiência, exige uma força de trabalho qualificada, capaz de lidar com complexidades analíticas e comunicativas. As deficiências observadas em matemática e leitura não se restringem ao ensino médio; elas se propagam para o nível superior, comprometendo a formação de profissionais em áreas críticas. Recentemente, debates sobre a qualificação de médicos no Brasil ilustram esse ponto: problemas na prática profissional muitas vezes remontam a lacunas na base educacional, como dificuldades em interpretação de textos científicos ou no raciocínio lógico-matemático. Em um mundo onde o talento humano é o principal diferencial competitivo, ignorar essas fraquezas equivale a hipotecar o futuro econômico.
É urgente tratar a formação escolar como um tema estratégico nacional. Sem uma base sólida no ensino fundamental e médio, o ensino superior acaba sobrecarregado, resultando em graduados que enfrentam dificuldades para se inserirem nas suas áreas de formação, incluindo em ciências e tecnologia. Não se trata de buscar milagres ou soluções mágicas: deficiências persistentes em leitura e matemática, como as registradas pelo Brasil, são incompatíveis com aspirações de desenvolvimento acelerado e, pior, muitas vezes são incompatíveis com as demandas de um ensino superior de ponta.
É importante também lembrar, que o avanço da Inteligência Artificial demandará profissionais cada vez melhor preparados. Formação de pessoas capazes de apenas realizar tarefas corriqueiras de cada profissão, não é algo que se espera do ensino superior. Estas tarefas corriqueiras serão executadas cada vez mais por inteligência artificial. É preciso aumentar o valor dos profissionais formados no Brasil.
Assim, a expansão do ensino superior nas últimas décadas no Brasil trouxe à tona uma realidade há muito conhecida: um diploma, por si só, pode se tornar um mero pedaço de papel se não vier acompanhado de conhecimentos sólidos, habilidades práticas e atitudes profissionais adequadas. Com mais de 8 milhões de matriculados em cursos superiores, o país ampliou o acesso, mas não necessariamente a qualidade.
Isso se reflete no mercado de trabalho, onde empregadores relatam dificuldades em encontrar candidatos preparados para demandas técnicas e analíticas em quase todas as áreas. Em setores como tecnologia da informação e engenharia, por exemplo, as deficiências na formação em lógica e na comunicação escrita e oral agravam o descompasso entre oferta e demanda de mão de obra.
Uma possível abordagem para reverter esse quadro poderia envolver uma priorização de esforços na educação básica, sem ênfase em de programas extensos e dispersos no que diz respeito ao conteúdo. Enfatizar elementos essenciais – como leitura e compreensão de textos, com base em literatura de qualidade, capacidade de expressão oral e escrita (incluindo escrita criativa), matemática (incluindo lógica), e fluência em um idioma estrangeiro, medida por padrões objetivos como, por exemplo, o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas – poderia gerar impactos mensuráveis.
Estabelecer metas claras nesses pilares, aliadas a avaliações bem executadas de alunos e docentes, para monitorar o progresso, seria um passo significativo e efetivo para elevar o padrão geral sem demandar recursos exorbitantes. Usar as ferramentas de divulgação de informação para que a sala de aula se mescle com o cotidiano dos estudantes também pode ser mais uma maneira de melhorar a formação. Isso sem desprezar alguns outros pontos importantes na formação de um indivíduo mais inserido num padrão cultural e formativo que permitam que este indivíduo possa dialogar, na idade adulta, com ideias e conceitos mais avançados, quando estiver no ensino superior.
Obviamente não se advoga um ensino puramente instrumental ou voltado para aprovação num exame específico, mas sim, uma educação voltada para os fundamentos e que ao mesmo tempo auxilie na composição de um reportório cultural e informativo nos estudantes.
A qualidade da educação deve ser elevada a um valor estratégico para o Brasil, indo além de celebrações isoladas, ainda que absolutamente meritórias e necessárias, de talentos excepcionais – como os que brilham em olimpíadas internacionais ou ingressam em universidades de elite no exterior. O verdadeiro desafio reside em massificar uma educação de excelência, acessível a todos os estudantes, independentemente de origem na sociedade.
Para o setor de negócios, isso representa não apenas uma responsabilidade social, mas uma oportunidade: investir em parcerias público-privadas para capacitação pode impulsionar uma melhora real e efetiva, ainda que não tão rápida quanto se deseje. Entretanto, sem ações concretas, o risco é perpetuar um ciclo de subdesenvolvimento que afeta diretamente o PIB e a atratividade do país para investimentos. A má formação de pessoas é, de fato, um obstáculo ao desenvolvimento do Brasil. É preciso mudar esse panorama.

