Titulação docente garante melhor formação em Engenharia?

Artigo do prof. Dr. Marcelo Massarani, publicado em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital em 03/03/2026.

Titulação docente elevada fortalece a base científica, mas não garante, por si só, competência para formar profissionais preparados para o mundo real

Há uma convicção amplamente aceita no debate educacional brasileiro. Quanto maior a proporção de mestres e doutores no corpo docente, maior a qualidade do curso. 

O novo marco regulatório da educação superior, instituído pelo Decreto nº 12.456/2025 e detalhado por portarias do Ministério da Educação, reforça essa direção ao exigir que o corpo docente dos cursos semipresenciais possua pós-graduação, preferencialmente mestrado ou doutorado. As avaliações dos cursos presenciais já vinham premiando instituições com maior densidade acadêmica. A mensagem é consistente. Titulação elevada é sinônimo de excelência.

Mas será mesmo?

A afirmação é confortável. Permite medir qualidade por um indicador objetivo e facilmente quantificável. Percentuais de doutores cabem em relatórios, rankings e planilhas regulatórias. O problema começa quando essa métrica passa a ser tratada como verdade incontestável, especialmente em cursos de natureza profissionalizante como os de Engenharia.

É preciso reconhecer o fundamento da valorização. Mestrado e doutorado são pilares do sistema científico. Formam pesquisadores, desenvolvem rigor metodológico, aprofundam domínio teórico e produzem conhecimento novo. São essenciais para a inovação tecnológica, a autonomia científica e a competitividade industrial. Um país que deseja avançar em infraestrutura, energia, manufatura avançada ou transformação digital precisa de doutores qualificados.

Além disso, a formação stricto sensu tende a elevar o nível conceitual da graduação. Professores com sólida formação acadêmica contribuem para maior profundidade analítica, visão sistêmica e constante atualização tecnológica. Em Engenharia, onde matemática, física e modelagem estruturam o raciocínio técnico, isso tem peso real.

Nada disso está em discussão.

A questão surge quando se transforma essa constatação em equivalência automática. Mais doutores implicam, necessariamente, melhor formação profissional na graduação em Engenharia?

A graduação em Engenharia é, por definição, profissionalizante. Forma engenheiros que irão projetar estruturas, integrar sistemas complexos, desenvolver produtos, planejar obras, operar processos industriais e assumir responsabilidade técnica. O desempenho do egresso será medido pela sua capacidade de transformar conhecimento em solução concreta, sob restrições reais de prazo, custo, segurança e impacto social.

Mestrado e doutorado, por sua vez, têm finalidade específica. Formam pesquisadores. É perfeitamente possível concluir um doutorado em Engenharia sem nunca ter atuado profissionalmente como engenheiro. É possível percorrer toda a trajetória acadêmica desenvolvendo simulações numéricas, algoritmos avançados, modelos teóricos ou experimentos laboratoriais controlados, sem ter acompanhado a execução de uma obra, participado da implantação de uma planta industrial ou assumido responsabilidade técnica em campo.

Um pesquisador pode tornar-se especialista em modelagem estrutural sem ter enfrentado os desafios concretos de fabricação, tolerâncias acumuladas, limitações de usinagem, montagem em linha de produção ou falhas ocorridas em operação real. Pode publicar artigos sobre controle avançado sem ter lidado com falhas de sensores em ambiente industrial. Pode estudar planejamento energético sem ter gerenciado a implantação concreta de um sistema. Essas trajetórias são legítimas e fundamentais para a ciência.

O ponto é simples. Essa formação, por si só, não assegura experiência profissional aplicada. E experiência aplicada é componente central na formação de um engenheiro.

Em disciplinas como projeto estrutural, automação industrial, manutenção, integração de sistemas, desenvolvimento de produto ou gestão de obras, a vivência prática agrega algo que não se aprende apenas em laboratório ou em ambiente de simulação. Docentes que tenham atuado como engenheiros responsáveis por obras, liderado equipes técnicas em plantas industriais, desenvolvido produtos inseridos no mercado, negociado prazos, custos e especificações técnicas em contratos reais, trazem para a sala de aula um repertório que vai além do domínio teórico.

Esses profissionais relatam decisões tomadas sob pressão, conflitos entre desempenho técnico e restrições econômicas, limites impostos por normas, auditorias e órgãos reguladores, falhas ocorridas em campo e as consequências dessas falhas. Essa dimensão concreta contribui para formar maturidade profissional e senso de responsabilidade técnica nos alunos.

A discussão, portanto, não é se mestres e doutores são importantes. Eles são. O país precisa de pesquisadores fortes para sustentar inovação e competitividade. O que se questiona é a simplificação. A suposição de que o título acadêmico, isoladamente, é garantia de excelência formativa na graduação profissionalizante.

O momento atual torna essa reflexão ainda mais necessária. O Brasil enfrenta desafios estruturais em infraestrutura, transição energética, mobilidade, digitalização produtiva e competitividade industrial. Ao mesmo tempo, há preocupação com a quantidade e a qualidade da formação de engenheiros. Não basta ampliar vagas. É preciso assegurar que os egressos estejam preparados para assumir responsabilidade técnica com competência e segurança.

Se aceitarmos sem debate a ideia de que mais doutores significam automaticamente melhor formação profissional, corremos o risco de tratar um meio como se fosse fim. Titulação é um indicador relevante de densidade acadêmica. Não é sinônimo absoluto de competência formativa.

Cursos de Engenharia de excelência precisam de base científica sólida. Precisam de docentes capazes de assegurar rigor conceitual e atualização tecnológica. Mas também podem se beneficiar da presença estruturada de engenheiros com experiência profissional consistente, especialmente nas disciplinas aplicadas e nos projetos integradores que conectam teoria e realidade.

A qualidade da graduação profissionalizante depende da integração entre teoria profunda e prática concreta. Quando se privilegia exclusivamente a primeira dimensão, a formação pode ganhar sofisticação conceitual e perder aderência à complexidade operacional do mundo real.

O novo marco regulatório reforça a valorização da pós-graduação nos cursos semipresenciais. As avaliações já vinham premiando maior densidade acadêmica nos cursos presenciais. A tendência é consistente e compreensível. O que merece debate é a interpretação automática de que a elevação formal da titulação resolve, por si, o desafio da formação profissional em Engenharia.

Engenharia é aplicação responsável do conhecimento. A ciência fornece fundamentos. A prática impõe restrições, revela incertezas e exige decisões sob risco. 

Questionar essa “verdade incontestável” não é negar o valor da titulação. É reconhecer que, em cursos profissionalizantes como Engenharia, excelência formativa não se mede apenas pelo número de títulos exibidos no quadro docente.

Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo