Artigo do prof. Dr. Marcelo Massarani em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital em 24/02/2026
Reconhecimento social, investimento em ciência e os sinais que enviamos sobre o futuro que pretendemos construir
Há poucos dias, uma pesquisa conduzida no Brasil voltou a circular na imprensa. Tratava-se do trabalho da neurocientista Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujo grupo investiga há décadas moléculas derivadas da laminina com potencial para estimular a regeneração de conexões neurais após lesões graves na medula espinhal. Resultados experimentais indicam a possibilidade de recuperação de movimentos antes considerados perdidos. Para quem vive a realidade de uma lesão medular, a diferença entre mover e não mover um membro ultrapassa o plano clínico. Representa mudança concreta de destino.
A repercussão foi breve. Algumas entrevistas, comentários nas redes, menções pontuais. Em seguida, o fluxo informativo retomou sua rotina dominada por disputas superficiais, episódios de entretenimento e controvérsias passageiras. Leveza faz parte da vida social. O problema surge quando o que é estrutural perde espaço de maneira recorrente para o que é transitório. Quando isso se consolida como padrão, revela uma escolha cultural.
A desvalorização da ciência não decorre de um único fator. Ela resulta de como organizamos nossos incentivos coletivos. Envolve aspectos cognitivos, educacionais, midiáticos, políticos e econômicos. E envolve prioridades.
Do ponto de vista cognitivo, a ciência exige disciplina intelectual. Trabalha com hipóteses, revisões, probabilidades e limites metodológicos. Não oferece certezas instantâneas. Nosso cérebro, por outro lado, é atraído por narrativas claras, conflitos definidos e conclusões rápidas. Em um ambiente saturado de estímulos, ganha espaço o que provoca reação imediata. O método científico opera em outro ritmo.
A educação poderia compensar essa tendência natural. Nem sempre o faz. Em muitos casos, ensina-se ciência como conjunto de conteúdos prontos, não como processo de construção do conhecimento. O estudante memoriza fórmulas, mas raramente acompanha a lógica que sustenta as conclusões. Ao chegar à vida adulta, pode não distinguir com clareza entre evidência acumulada e opinião articulada. O debate público perde qualidade e a equivalência artificial entre achismo e pesquisa passa a parecer aceitável.
A economia da atenção intensifica o quadro. Plataformas digitais são desenhadas para maximizar engajamento. Circula com velocidade aquilo que provoca emoção imediata. Descobertas científicas são graduais, condicionais e dependem de contexto. Competem em desvantagem em um ambiente que privilegia impacto instantâneo. O algoritmo favorece intensidade, não profundidade.
Há também escolhas políticas envolvidas. Ciência exige planejamento de longo prazo. A política, pressionada por ciclos curtos, tende a privilegiar resultados visíveis no presente. Projetos de pesquisa consomem recursos hoje e produzem retorno distribuído ao longo de anos. Em momentos de restrição fiscal, o orçamento científico torna-se variável de ajuste. O Brasil investe pouco mais de um por cento do Produto Interno Bruto em pesquisa e desenvolvimento. Países que decidiram competir tecnologicamente investem dois ou três por cento. A diferença revela estratégia.
A estrutura econômica reforça esse padrão. Economias cuja competitividade depende de inovação tecnológica tratam ciência como ativo central. Onde crescimento, exportações e empregos qualificados estão vinculados a patentes e novos materiais, o pesquisador ocupa posição de destaque. Economias menos dependentes de inovação sentem menor urgência em investir de forma consistente em pesquisa. O prestígio acompanha a necessidade percebida.
Há ainda responsabilidade interna. A comunidade científica nem sempre comunica seus resultados de maneira acessível. Produzir conhecimento é condição necessária, e torná-lo compreensível ao público amplo é etapa igualmente relevante. Sem narrativa clara, a ciência permanece confinada a círculos especializados. Aquilo que não é compreendido dificilmente é valorizado.
Diante desse cenário, limitar-se à constatação do problema é confortável. Mais difícil é reconhecer que ele envolve decisões coletivas cotidianas. O que compartilhamos, comentamos e celebramos envia sinais sobre o que consideramos relevante. Jovens talentos observam esses sinais. Se visibilidade e reconhecimento concentram-se quase exclusivamente em trajetórias de exposição imediata, é racional que direcionem seus esforços para esses campos. Quando reconhecemos com clareza o valor de quem dedica décadas a resolver problemas complexos, criamos outro horizonte de aspiração.
As respostas precisam ser estruturais. Reformar o ensino de ciências para priorizar método, raciocínio estatístico e interpretação de evidências é política de formação cidadã. Garantir estabilidade orçamentária para pesquisa fortalece a autonomia tecnológica. Estimular o setor produtivo a investir de forma consistente em pesquisa e desenvolvimento amplia a competitividade. Integrar ciência ao repertório cultural do país constrói referência simbólica duradoura.
Nada disso produzirá manchetes estridentes. Mas definirá a posição do país nas próximas décadas.
O trabalho da pesquisadora brasileira que investiga a regeneração da medula espinhal demonstra capacidade científica instalada. Competência técnica existe. A questão central é o lugar que a ciência ocupa na hierarquia de prioridades nacionais.
O que admiramos orienta onde investimos. E onde investimos determina quem seremos.
Estamos organizando nossos incentivos para valorizar o que sustenta o futuro ou continuaremos a priorizar o que apenas ocupa o presente. A resposta será dada pela consistência das escolhas em orçamento, educação, economia e espaço público. Países não se tornam irrelevantes de uma vez. Tornam-se irrelevantes por negligência acumulada.
Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo

