Artigo elaborado pelo prof. Marcelo Massarani, publicado em 10/02/2016 em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital.
O impacto econômico da desinformação segundo o Global Risks Report 2026
O Global Risks Report 2026, publicado pelo World Economic Forum, reúne anualmente a visão de líderes empresariais, especialistas e formuladores de políticas públicas sobre os principais riscos capazes de afetar economias e sociedades nos próximos anos. Não se trata de prever eventos específicos, mas de identificar tendências estruturais que, com frequência, antecedem crises reais antes que elas apareçam de forma clara nos indicadores econômicos. Por isso, o relatório consolidou-se como uma referência para quem busca compreender riscos emergentes de forma sistêmica.
Entre os diversos temas analisados nesta edição, um em particular chama atenção pelo impacto direto sobre a economia real. A desinformação e a manipulação informacional deixam de ocupar um espaço periférico e passam a ser tratadas como fatores relevantes para mercados, empresas e instituições. O documento associa esse movimento à disseminação de tecnologias capazes de gerar conteúdos sintéticos com alto grau de realismo, alterando o ambiente de confiança no qual decisões econômicas são tomadas.
O relatório mostra que o custo de produzir informações falsas com aparência legítima caiu drasticamente. Textos, imagens, vídeos e áudios podem ser gerados em escala e distribuídos com velocidade superior à capacidade de verificação das organizações. Esse descompasso afeta a lógica da decisão econômica. A confiança, antes presumida em muitas interações, passa a exigir validação constante, o que eleva custos e alonga processos.
Ao longo da análise, fica evidente que o problema alcança desde operações rotineiras até decisões estratégicas. Reuniões virtuais exigem cautela adicional. Comunicados precisam ser confirmados por múltiplas fontes. Movimentos de mercado podem ser acionados por informações falsas que circulam por tempo suficiente para produzir efeitos financeiros concretos. Em ambientes sensíveis ao tempo, esse intervalo tem peso relevante.
Este relatório também destaca que a disseminação de conteúdos manipulados ocorre em ritmo superior à capacidade de resposta de empresas e governos. A reação tende a vir depois que o impacto já se materializou. Com isso, o risco informacional passa a integrar o risco operacional, refletindo-se em custos adicionais, maior complexidade regulatória e exigências crescentes de compliance.
Outro ponto relevante diz respeito à qualidade das decisões. Ambientes informacionais degradados favorecem comportamentos defensivos e reduzem a disposição a assumir riscos calculados. Processos decisórios tornam-se mais lentos. Projetos tecnicamente viáveis são adiados. A eficiência econômica sofre não por falta de tecnologia ou capital, mas pela dificuldade crescente de confiar nos dados disponíveis.
No campo institucional, o documento aponta que a perda de credibilidade de governos, reguladores e meios de comunicação compromete a coordenação econômica. Políticas públicas enfrentam resistência mesmo quando tecnicamente consistentes. A implementação de reformas se torna mais difícil. A economia passa a operar com maior atrito entre agentes que já não compartilham a mesma base informacional.
Do ponto de vista empresarial, a edição de 2026 chama atenção para a ampliação do risco reputacional. Organizações passam a conviver com a possibilidade constante de narrativas fabricadas ganharem tração antes de qualquer apuração. Mesmo quando desmentidas, essas narrativas deixam efeitos persistentes, com reflexos sobre valor de mercado, acesso a crédito e relações comerciais.
Como resposta, empresas direcionam recursos crescentes para monitoramento de informação, verificação de identidade digital e protocolos de reação rápida. São investimentos defensivos, necessários para operar em um ambiente mais incerto. O relatório observa que esse redirecionamento reduz a parcela de recursos disponível para inovação, produtividade e expansão.
O texto também registra que a manipulação informacional passou a integrar disputas entre Estados e blocos econômicos. Ataques à credibilidade de setores estratégicos e empresas relevantes tornam-se instrumentos de pressão em conflitos que não se apresentam de forma explícita. Os efeitos econômicos são difíceis de mensurar, mas influenciam expectativas, fluxos de capital e decisões de investimento.
Para economias emergentes, este relatório aponta uma vulnerabilidade adicional. Instituições menos robustas e maior dependência de capital externo amplificam os efeitos de choques de confiança. Informações falsas podem afetar câmbio, crédito e expectativas inflacionárias em poucas horas, com impactos desproporcionais.
A mensagem central do Global Risks Report 2026 é clara. A economia moderna depende de um nível mínimo de confiança distribuída. Quando essa base se enfraquece, contratos ficam mais caros, decisões mais lentas e riscos mais elevados. O custo da desinformação já está embutido no funcionamento do sistema, mesmo que não apareça explicitamente nos balanços.
Durante muito tempo aprendemos que ver era crer. Hoje, diante de imagens perfeitas, vozes convincentes e textos impecáveis, talvez seja o caso de atualizar o ditado. No ambiente descrito neste relatório, ver continua sendo importante, mas acreditar virou um exercício que exige um pouco mais de trabalho.
Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo

