Artigo elaborado para o newsletter MSSRI do prof. Dr. Marcelo Massarani, veiculado em 30/01/2026.
O paradoxo do mercado de trabalho exposto no Global Risks Report 2026 e o custo estratégico da falta de qualificação
Entre os diversos riscos mapeados pelo Global Risks Report 2026, publicado pelo World Economic Forum, há um que chama atenção pela sua capacidade de comprometer decisões, execução e competitividade ao longo do tempo. Trata-se da escassez de talentos e de mão de obra qualificada, apontada no relatório como um risco relevante tanto no curto quanto no longo prazo.
O relatório tem peso justamente por reunir a percepção de líderes empresariais, formuladores de políticas e especialistas de diferentes regiões e setores. Ele não trata riscos como eventos isolados, mas como fenômenos interconectados. Nesse contexto, a falta de profissionais qualificados aparece associada à aceleração tecnológica, à transformação do trabalho e às mudanças demográficas, compondo um cenário que afeta diretamente a capacidade das organizações de operar e se adaptar.
Esse ponto merece atenção especial porque costuma ser tratado de forma reducionista. Fala-se em falta de gente, quando o problema central é a falta de preparo para lidar com a complexidade crescente dos negócios. Para as empresas, isso vai muito além da dificuldade de preencher vagas. Impacta a qualidade das decisões, fragiliza a execução, atrasa projetos, concentra riscos em poucos indivíduos e reduz a capacidade de resposta em ambientes instáveis.
No Brasil, esse risco se manifesta de forma particularmente clara. Há uma desconexão histórica entre formação e necessidades reais das empresas. Soma-se a isso um ambiente institucional instável, mudanças frequentes de regras e um mercado que exige competências técnicas e cognitivas que o sistema educacional, em muitos casos, não consegue entregar. O resultado é um paradoxo persistente. O desemprego convive com vagas abertas. A oferta existe, mas as competências não se encontram.
Diante desse cenário, algumas empresas optam por investir fortemente em treinamento interno. O benefício é a formação alinhada às necessidades específicas do negócio e o fortalecimento da cultura organizacional. O custo aparece no tempo de maturação, no investimento financeiro e no risco de formar profissionais que acabam sendo absorvidos pelo mercado. Outras recorrem à importação de talentos ou à terceirização de funções críticas. Isso pode acelerar ganhos de competência, mas aumenta a dependência externa e limita o aprendizado interno.
Há ainda a aposta em automação e tecnologia como resposta estrutural. Em muitos casos, essa escolha é inevitável e correta. O problema surge quando se ignora que tecnologia também exige pessoas capazes de especificar, operar e interpretar sistemas cada vez mais complexos. Sem isso, o investimento perde eficácia e gera frustração.
O Global Risks Report 2026 deixa claro que a escassez de talentos não é um fenômeno conjuntural. Trata-se de uma vulnerabilidade estrutural que tende a se agravar se não for tratada de forma estratégica. Para empresários, isso exige uma mudança de postura. Formação e desenvolvimento deixam de ser temas periféricos e passam a ocupar o centro da discussão sobre sustentabilidade do negócio.
Não há solução simples nem resposta única. Cada caminho envolve ganhos e custos, benefícios e limitações. O ponto central é reconhecer que ignorar o problema também é uma decisão, e uma decisão de alto risco. Em um ambiente cada vez mais competitivo, a falta de gente preparada não apenas limita o crescimento. Ela redefine quem consegue permanecer relevante.
Talvez a pergunta mais incômoda não seja onde estão os talentos, mas se as empresas estão realmente preparadas para identificá-los, desenvolvê-los e, sobretudo, criar condições para que façam diferença.

