Em sua coluna na Gazeta Mercantil Digital, o prof. Dr. Marcelo Massarani traz o segundo artigo da série de três textos dedicados a discutir o dinheiro a partir de suas transformações tecnológicas. (27/01/2026)
Como uma nova rede busca unir escassez, descentralização e confirmações em segundos.
Ingressar em condições semelhantes por meio da mineração. Em sistemas monetários emergentes, esse detalhe influencia diretamente a distribuição de poder econômico e a percepção de legitimidade ao longo do tempo.
Kaspa adota ainda uma política monetária de escassez programada, com oferta máxima próxima de 28,7 bilhões de unidades. A moeda nativa da rede é identificada pelo código KAS, de forma semelhante ao BTC no Bitcoin. A emissão do KAS segue um modelo de reduções suaves e contínuas ao longo do tempo, equivalentes, no acumulado, a uma redução anual pela metade. Para o leitor leigo, isso significa que novas unidades entram em circulação cada vez mais lentamente, de forma previsível, sem depender de decisões futuras de qualquer autoridade.
Até aqui, pode parecer que a diferença entre Bitcoin e Kaspa se resume apenas à velocidade. Essa leitura é incompleta. O que torna Kaspa particularmente interessante é o caminho escolhido para alcançar rapidez sem abrir mão de descentralização, mineração aberta e segurança baseada em prova de trabalho. Ela propõe uma reorganização da infraestrutura do consenso, preservando os pilares que fizeram do Bitcoin um marco, mas adaptando-os a um contexto em que o uso cotidiano do dinheiro digital se torna mais plausível.
Naturalmente, Kaspa ainda precisa demonstrar maturidade. Redes mais novas enfrentam desafios relevantes, como resistir a ciclos de mercado, lidar com picos prolongados de uso e desenvolver um ecossistema robusto de aplicações e ferramentas acessíveis ao usuário comum. Segurança distribuída não se comprova apenas no desenho técnico, mas ao longo do tempo e sob pressão real.
No momento em que este artigo está sendo redigido, o preço do KAS gira em torno de 0,04 dólar por unidade. Esse valor não deve ser interpretado como recomendação ou previsão, mas como um retrato do estágio atual do projeto. O Bitcoin também foi, em seus primeiros anos, pequeno demais para ser levado a sério por muitos. Isso não significa que toda inovação técnica repetirá o mesmo percurso, nem que exista qualquer garantia de valorização expressiva.
O futuro da Kaspa pode seguir caminhos distintos. Em um cenário favorável, ela consolida adoção, comprova resiliência e passa a ocupar um espaço próprio como criptomoeda de uso mais fluido, baseada em prova de trabalho e com regras monetárias previsíveis. Em um cenário menos positivo, pode permanecer como uma solução técnica relevante, porém restrita a nichos. Há ainda a possibilidade intermediária, comum em tecnologias emergentes, em que suas ideias influenciam outras redes e ajudam a moldar padrões futuros.
Independentemente do desfecho, Kaspa já cumpre um papel importante. Ela mostra que o sucesso do Bitcoin não encerrou a discussão sobre dinheiro digital. Pelo contrário. Abriu espaço para uma nova rodada de escolhas de engenharia que busca aproximar velocidade, confiança e descentralização. Por isso, mais do que uma aposta ou promessa, Kaspa se apresenta como um experimento que vale a pena acompanhar. Observar sua evolução nos próximos anos ajuda a entender não apenas o futuro de uma criptomoeda específica, mas os caminhos possíveis para o próprio conceito de dinheiro digital.
Nota ao leitor
Este artigo integra uma sequência iniciada na coluna anterior. No próximo texto, que encerra esta série, o foco será ampliado para uma reflexão mais geral sobre as implicações do dinheiro digital quando passa a ser entendido como infraestrutura tecnológica.
Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo

